terça-feira, abril 19, 2005
Espelho
Eu sou assim, muito chata e esquecida. Esqueço tudo, quem ligou, porque que saí do meu quarto e fui até a sala e me acho uma idiota por causa disso. Anoto um recado e esqueço de entregar. Às vezes lembro, mas só às vezes. Só tenho memória pra detalhes inúteis, que pra mim são essenciais. Lembro a roupa que eu estava usando a primeira vez que saí com ele, a segunda vez que saí com ele, e até a última. Lembro também de músicas, o tempo todo. Me encontro em situações que poderia citar uma música inteira pra pessoa com quem estou conversando. Poderia citar frases, refrões sem dar maiores explicações de onde tirei aquilo tudo, mas se a outra pessoa não tiver a mais vaga idéia do que estou falando, com certeza vou ficar vermelha e gaguejar, então apenas converso, e guardo aquela música pra mais tarde escrever no caderno. Reparo muito nas pessoas, nas suas histórias, modos de pensar, vestir, agir, suas vozes e formas...como se fossem todos pacientes que estão sob a observação e análise da psicóloga aqui. O problema é que me envolvo demais...a ponto de já ter comparado a minha vida a um filme onde eu mesma não estou. Sou tão exigente e crítica com tudo, que raramente gosto de um trabalho que eu faço, começo logo apontando os defeitos, os erros e coisas que só eu consigo ver. É, além de tudo eu sou implicante e cri-cri. Se vejo um cara usando meias até a canela já me dá coceira. Pochete e bermuda jeans também são dois acessórios que condeno ardentemente e já nem quero conhecer uma pessoa que use essas coisas. Uma vez me distraí e conheci um cara que usava aquelas calças de tecido sintético que mais parece saco plástico e me apaixonei muito seriamente por ele. E, sacana como sou, ri bastante quando, ele, ao se sentar, rasgou a bendita calça. Uma coisa que você tem que saber: eu me distraio e me apaixono todo dia. Eu vou andar cantarolando e perco a rua que tinha que entrar, então tenho que dar uma volta, e não acho mais meu caminho. Me perco até em shopping. E me apaixono mesmo, quantos paixões despertadas apenas por uma conversa, quantas vezes já chorei por perder homens da minha vida, e quantos ainda virão. Foi assim com o cara da calça, com o cara do colégio, com aquele outro, com o ex-namorado então, ainda é um pouco. Pra mim, amor e paixão são coisas diferentes. Mas por esse último eu me apaixonava todo dia, cada vez que ele sorria pra mim, me olhava com aquela carinha linda, ou mesmo porque sabia que ele existia. Uma confissão: eu sou romântica e ingênua. Muuuuuuito romântica. Descobri isso agora. Adoro receber flores e carinho, e não vivo mais sem uma declaração de amor de vez em quando. Isso me alimenta quase tanto como chocolate. Eu sou chocólatra, fique sabendo. E muito preguiçosa, tão preguiçosa que chega a ser irritante. Tenho idéias que não uso, tenho vontades que não faço, tenho sonhos que não realizo, por pura preguiça, talvez meu pior defeito. Tenho defeitos horríveis que tento esconder, mas que sempre aparecem por causa da minha distração com tudo. Tenho mania de mudar...mudar tudo. A cor do meu quarto, a estação do rádio do carro (o que irrita qualquer um com mais de quarenta anos), o corte de cabelo, mudo até as minhas próprias manias. Coleciono amigos, gosto muito de pessoas e guardo as que tenho com muito cuidado. Adoro ficar sozinha, passar muito tempo comigo...Se um dia eu desaparecer é porque estou me conhecendo mais e posso passar vários dias assim. Não se preocupe. Sou bastante desorganizada, meu quarto é uma bagunça. Minhas gavetas também. Deixo ficar tudo uma zorra pra depois arrumar de uma vez só. Aliás...tenho esse costume. Esperar as coisas ficarem em estado lastimável para resolver consertar...computador, som, relacionamentos, eu. E sou consumista, meus sapatos não cabem mais no meu armário. Sou velha quase sempre. Dispenso festas e badalações por um bom filme, sou capaz de passar o fim de semana rodeada de DVDs, estatelada no sofá. Sou filme-maníaca, não esqueça disso. Sou sonhadora também, demais. Imagino coisas, situações, diálogos que nunca vão acontecer. Isso acontece quando vou dormir, hora em que não consigo parar de pensar em tudo. Levanto mil vezes antes de conseguir finalmente fechar os olhos, pra separar coisas que tenho que levar no dia seguinte, pra anotar algo importante que não posso esquecer, pra escrever alguma coisa que pode ser o começo de um texto qualquer, então deito a cabeça no travesseiro. E boa noite. Sou dorminhoca pra caramba quando não estou sob tensão emocional. Durmo muito, horas e horas, oito pra mim não são suficiente. E escrevo demais, tenho tantos cadernos e agendas e diários que parece que nunca acaba, as palavras vão saindo, saindo, saindo e quando vejo to escrevendo sem parar. Tenho uma grande dificuldade em simplificar as coisas....esse texto, por exemplo, poderia ter sido escrito somente com as palavras em negrito. É que eu me empolgo às vezes. Viajo quase sempre... Eu sou assim. Queria ser mais.
segunda-feira, abril 04, 2005
Desconfio que nasci no século errado...
Queria viver naquele tempo em que nem tudo era tão explícito
onde as donzelas eram inatingíveis
e os amores impossíveis
onde os olhos se tornavam bocas
onde a pele exalava paixão por todos os seus poros
onde o cheiro era mais doce
os corações mais acelerados
e as lágrimas menos contidas
onde as músicas mais sentimentais embalavam cenas mais românticas
onde se vivia para sonhar com um príncipe encantado
e se apaixonar ...
onde sofrer por amor era sublime
e não condenado
onde as juras eram mais verdadeiras
e as declarações mais fervorosas
onde os poetas eram mais inspirados
e o tempo passava mais devagar...
Tem dias que só o que eu precisava era da minha imaginação e da brisa...
onde as donzelas eram inatingíveis
e os amores impossíveis
onde os olhos se tornavam bocas
onde a pele exalava paixão por todos os seus poros
onde o cheiro era mais doce
os corações mais acelerados
e as lágrimas menos contidas
onde as músicas mais sentimentais embalavam cenas mais românticas
onde se vivia para sonhar com um príncipe encantado
e se apaixonar ...
onde sofrer por amor era sublime
e não condenado
onde as juras eram mais verdadeiras
e as declarações mais fervorosas
onde os poetas eram mais inspirados
e o tempo passava mais devagar...
Tem dias que só o que eu precisava era da minha imaginação e da brisa...
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