
“Todo paraíso tem serpentes.
Menos o da Propaganda.
Ora.
Não são todas as manhãs alpinas?
Não são todas as cozinhas, sem exceção, brancas; lindas; modernas e com alva fumacinha saindo dos bicos das alvas chaleiras postas sobre alvos fogões maravilhosos?
E todas as mesas? Não são elas (super coloridamente) arrumadas, com frutas; sucos; cereais e laticínios (milimétricamente) compostos diante de famílias lindas, pais e mães morenos com casais de filhos (surpreendentemente) louros que - em se tratando de crianças - possuem inauditas disciplina; apetite e alegria matinal?
E os ambientes de trabalho? Não são eles sempre amigáveis e eficientes?”
Trecho do livro '
A Publicidade é um cadáver que nos sorri', de Oliviero Toscani.
Toscani é aquele fotógrafo italiano que produziu as antigas e polêmicas (e lindas!) campanhas da Benetton. Campanhas que não tinham muito a ver com a venda de roupas, não tinham slogan nem produto, mas apenas o famoso
United Colors of Benetton - já que o coroa estava mais preocupado em promover a conscientização social do que propriamente a marca. Toscani costumava dizer: "eu tiro fotografias, não vendo roupa". Em vez de apresentar uma realidade fictícia e atraente, através da qual o consumidor fosse seduzido a comprar os produtos anunciados para poder fazer parte desse mundo ideal, ele preferiu transmitir uma realidade atual e verdadeira para gerar a discussão de temas pouco usuais na publicidade, próprios de outros canais. A sua mensagem é simples: transformar a publicidade em veículo de conscientização e não de alienação.
O cara é um gênio, foi extremamente ousado ao fugir do padrão da publicidade atual, tem fotos belíssimas, ricas na sua mensagem e na imagem em si e faz o maior sucesso. Contudo, há alguns anos atrás ele foi entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, e quase levou ao enfarto um dos decanos da publicidade brasileira ao acusá-lo de imbecilidade . A verdade seja dita: o italiano é arrogante, pretensioso, sarcástico, irritante. Em seu livro ele despejou suas críticas sem pudor algum – um verdadeiro desabafo. Esculachou a publicidade, cagou solenemente para as críticas e, obviamente, tratou de se enaltecer. Ele é aquele tipo de pessoa que desperta amor ou ódio nos outros, sem meio-termo. Pode ser magnífico por seu talento ou estúpido por suas grosserias. Na minha opinião, ele é os dois. E estou mais para o lado do amor, pois quanto à sua impertinência e agressividade: ele tenha lá sua razão para tal e os publicitários ‘convencionais’ também não são nada cordiais com ele. Ele pode (?). A arrogância de Toscani incomoda sim, mas essa falsa perfeição da publicidade incomoda muito mais.
E eu? Surtei e resolvi escrever sobre Toscani? Não...isso foi fruto de um papo entre futuras publicitárias – será?!
Falando em publicidade...
"Ontem vi um outdoor da Runner, com a foto de uma moça escultural de biquíni e a frase:
Neste verão, qual você quer ser? Sereia ou Baleia?Respondo. Baleias sempre estão cercadas de amigos; têm vida sexual ativa, engravidam e têm filhotinhos fofos. Baleias amamentam. Baleias nadam por aí, cortando os mares e conhecendo lugares legais como banquisas de gelo e recifes de coral. Baleias têm amigos golfinhos; comem camarão à beça; esguicham água e brincam muito. E cantam bem (têm até CDs gravados!). Baleias são enormes e quase não têm predadores naturais; são bem resolvidas, lindas e amadas, enquanto as sereias... ah, as sereias... Sereias não existem. E se existissem viveriam em crise existencial ('peixe ou ser humano?') Sereias não têm filhos, pois matam os homens que por elas se deixam encantar. São lindas, mas tristes. E sempre solitárias. Runner querida... prefiro ser baleia!"
(texto anônimo, atualmente circulando por aí)