
Só queria andar em uma estrada sem fim. Onde tivessem muitas árvores e montanhas ao redor. Queria que fosse dia. Não passariam carros nem pessoas e o sol seria a melhor companhia. A estrada sem fim seria uma grande reta onde se pudesse correr até perder as forças. Às vezes é preciso perder as forças. Deitar no chão. Cansar. Na estrada sem fim eu cansaria. E mais, na estrada sem fim eu poderia dizer: estou cansada.
Quando eu não agüentasse nem mais o sol, poderia chover. Poderia chover muito. Mas sem raios nem trovões. A estrada sem fim não é assustadora. Choveria no meio do dia e eu gritaria até perder a voz. Depois das forças e da voz, perderia quase involuntariamente todas as lágrimas restantes, que se misturariam com a chuva. Após a chuva faria um silêncio sedativo, eu andaria devagar e aprenderia a assobiar sozinha. Em pouco tempo estaria cantarolando, dando piruetas, toda serelepe.
No fim da estrada sem fim haveria uma aldeia. Os moradores do fim da estrada sem fim me receberiam com música e festa. Tomaríamos café e comeríamos bolo quente todos juntos. Eles seriam felizes de verdade. Tão felizes que eu poderia deixar por lá todas as minhas mágoa e todas as lembranças, inclusive as mais doídas, porque eles não se importariam. Talvez eu conseguisse convencê-los ainda a ficar com os meus piores defeitos e todas as lágrimas. Em troca, poderia encontrar a outra metade dos meus sentimentos. Aquela metade cujo lugar foi tomado justamente por tudo aquilo que eu queria me desfazer.
"Você já deixou tudo isso pelo caminho", diria um dos moradores. Eu não concordaria: "Como já deixei? Não faz sentido! E a metade dos meus sentimentos? Por acaso acharei ela no caminho de volta?" Mas não ia conseguir dizer nada. Teria passado a aceitar o que me diziam. Não contestaria mais. E quando eu perdoasse um outro, compreenderia que realmente tudo ficara para trás, no caminho, no cansaço, na chuva, no grito, nas lágrimas, no chão. Por fim, eu enxergaria que a outra metade dos sentimentos sempre estivera ali. Antes estava apenas encoberta, mas nunca deixara de existir. E agora, poderia enfim ser vivida.
Quando eu não agüentasse nem mais o sol, poderia chover. Poderia chover muito. Mas sem raios nem trovões. A estrada sem fim não é assustadora. Choveria no meio do dia e eu gritaria até perder a voz. Depois das forças e da voz, perderia quase involuntariamente todas as lágrimas restantes, que se misturariam com a chuva. Após a chuva faria um silêncio sedativo, eu andaria devagar e aprenderia a assobiar sozinha. Em pouco tempo estaria cantarolando, dando piruetas, toda serelepe.
No fim da estrada sem fim haveria uma aldeia. Os moradores do fim da estrada sem fim me receberiam com música e festa. Tomaríamos café e comeríamos bolo quente todos juntos. Eles seriam felizes de verdade. Tão felizes que eu poderia deixar por lá todas as minhas mágoa e todas as lembranças, inclusive as mais doídas, porque eles não se importariam. Talvez eu conseguisse convencê-los ainda a ficar com os meus piores defeitos e todas as lágrimas. Em troca, poderia encontrar a outra metade dos meus sentimentos. Aquela metade cujo lugar foi tomado justamente por tudo aquilo que eu queria me desfazer.
"Você já deixou tudo isso pelo caminho", diria um dos moradores. Eu não concordaria: "Como já deixei? Não faz sentido! E a metade dos meus sentimentos? Por acaso acharei ela no caminho de volta?" Mas não ia conseguir dizer nada. Teria passado a aceitar o que me diziam. Não contestaria mais. E quando eu perdoasse um outro, compreenderia que realmente tudo ficara para trás, no caminho, no cansaço, na chuva, no grito, nas lágrimas, no chão. Por fim, eu enxergaria que a outra metade dos sentimentos sempre estivera ali. Antes estava apenas encoberta, mas nunca deixara de existir. E agora, poderia enfim ser vivida.